quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Saga do Visitante


Não é à toa que o Brasil obteve seus cinco títulos mundiais atuando em território alheio. Ao longo da história, o selecionado brasileiro fez bem menos aparições em suas terras do que fora delas e, na mais importante, em 1950, caiu diante de seus súditos.

O futebol que conquistou Europa, América e Ásia começou sua saga de visitante vencedor há exatos 98 anos. Naquele longínquo domingo, 10 de agosto de 1913, a Seleção Brasileira, propriamente dita, ainda não existia – seria formada pela primeira vez um ano depois –, mas estava bem representada por um combinado paulista.

O escrete canarinho contava com o craque Arthur Friedenreich, que ainda atuava pelo Ipiranga. No elenco também estava Juvenal de Campos Filho, o Naná, que nem desconfiava ser um jogador predestinado. Nascido em 1º de janeiro de 1895, em Tatuí (SP), o atacante fazia parte de uma grande maioria de atletas do Americano.
 
O amistoso era o primeiro jogo do Brasil no exterior; justamente contra a seleção argentina, em Buenos Aires. O futebol ainda amador não tirara a importância do evento, uma vez que, àquela época, os argentinos já eram rivais declarados.

Na manhã do embate, os hermanos demonstraram a soberba de sempre ao estampar manchetes do tipo ¿Cuántos goles en Brasil?”. Tais jornais serviriam apenas para comprovar, além da habitual arrogância, a incompetência dos platinos.

Jogando no campo do Racing Club, a Argentina – com sua força máxima, diga-se de passagem – acreditava que a vitória seria uma questão de tempo. Porém, o time alviceleste foi surpreendido aos 33min do 1° tempo. O ponta-esquerda Formiga cruzou por baixo, na altura da marca penal, para o petardo de Naná, de primeira. Os argentinos ainda se recuperavam do baque quando, 4min depois, o capitão Décio Viccari surpreendeu o goleiro Pearson com outro arremate rasteiro: Brasil 2 a 0, selando o placar ainda na etapa inicial.

A Argentina livrou-se do vento contrário – razão atribuída para o revés do 1°tempo – e voltou para a fase complementar mais aguerrida, mas foi incapaz de mudar o placar.

A inesperada vitória brasileira foi arbitrada pelo técnico brasileiro A. Hutchinson, provavelmente o primeiro treinador de futebol no Brasil. Por sua vez, a Argentina conferiu a derrota à suposta má fé da arbitragem – hipócrita desculpa dos futuros campeões mundiais sob suspeitas.

98 anos depois do primeiro triunfo em campos adversários, o futebol brasileiro tomou outro rumo. Seria bom dizer que continua dando olé por onde passa, a fim de contrariar ainda mais os xenófobos da bola, mas o que se tem visto é um passeio dos estrangeiros. 

Se a Seleção Brasileira esqueceu o caminho do sucesso, a história sempre se lembrará de Naná e seu grande feito – o primeiro gol do Brasil no exterior.




Texto em homenagem ao meu bisavô Juvenal de Campos Filho, o Naná.

5 comentários:

  1. Belo texto, Milan! Resgata o amor ao país; ao ser uma pátria - de cuteiras ou não!

    Abraço

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  2. Pena que o seu bisavô já se foi. Tá fazendo falta um artilheiro na selecinha do Mano. Parabéns!

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  3. Agora SIM! Continue investindo seu trabalho nesse campo. Você tem qualidade e paixão. E é isso que importa.

    Mandou bem, mano. Parabéns! E sucesso com as resenhas.
    Abrasssssss...

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  4. Querido Bisneto,

    É com muita honra que fiquei sabendo que fui lembrado pelo meu bisneto mais querido.Depois de muito tempo longe dessa terra conforta meu coração a lembrança, o carinho e seu talento para a escrita.Sinto falta de coisas terrenas, da minha querida bola (aqui ela varia bastante pela ausência de gravidade), das bebidas inigualáveis, das festas,das mulheres.Estou bem aqui, adaptado e torcendo muito por vocês ai, especialmente para você Marcelo. Meu tempo aqui é curto, tenho afazeres, não posso me alongar. Mande um beijo para as minhas filhas.
    Um abraço apertado pra você, te vejo daqui a muito tempo...

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  5. É um honra saber que espíritos de luz de diferentes épocas se aproximam pela arte da psicografia. Seu primo é pródigo neste raro dom.

    Bastante nobre me parece sua arte escrita, especialmente quando homenageia suas origens.

    O futebol ainda te trará muita alegria e prosperidade, seja em campos reais, virtuais ou espirituais.

    Um fraterno abraço,

    Bezerra de Menezes (trisavô do Mano)

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