Não é à toa que o Brasil obteve seus cinco títulos mundiais atuando em território alheio. Ao longo da história, o selecionado brasileiro fez bem menos aparições em suas terras do que fora delas e, na mais importante, em 1950, caiu diante de seus súditos.
O futebol que conquistou Europa, América e Ásia começou sua saga de visitante vencedor há exatos 98 anos. Naquele longínquo domingo, 10 de agosto de 1913, a Seleção Brasileira, propriamente dita, ainda não existia – seria formada pela primeira vez um ano depois –, mas estava bem representada por um combinado paulista.
O escrete canarinho contava com o craque Arthur Friedenreich, que ainda atuava pelo Ipiranga. No elenco também estava Juvenal de Campos Filho, o Naná, que nem desconfiava ser um jogador predestinado. Nascido em 1º de janeiro de 1895, em Tatuí (SP), o atacante fazia parte de uma grande maioria de atletas do Americano.
O amistoso era o primeiro jogo do Brasil no exterior; justamente contra a seleção argentina, em Buenos Aires. O futebol ainda amador não tirara a importância do evento, uma vez que, àquela época, os argentinos já eram rivais declarados.
Na manhã do embate, os hermanos demonstraram a soberba de sempre ao estampar manchetes do tipo “¿Cuántos goles en Brasil?”. Tais jornais serviriam apenas para comprovar, além da habitual arrogância, a incompetência dos platinos.
Jogando no campo do Racing Club, a Argentina – com sua força máxima, diga-se de passagem – acreditava que a vitória seria uma questão de tempo. Porém, o time alviceleste foi surpreendido aos 33min do 1° tempo. O ponta-esquerda Formiga cruzou por baixo, na altura da marca penal, para o petardo de Naná, de primeira. Os argentinos ainda se recuperavam do baque quando, 4min depois, o capitão Décio Viccari surpreendeu o goleiro Pearson com outro arremate rasteiro: Brasil 2 a 0, selando o placar ainda na etapa inicial.
A Argentina livrou-se do vento contrário – razão atribuída para o revés do 1°tempo – e voltou para a fase complementar mais aguerrida, mas foi incapaz de mudar o placar.
A inesperada vitória brasileira foi arbitrada pelo técnico brasileiro A. Hutchinson, provavelmente o primeiro treinador de futebol no Brasil. Por sua vez, a Argentina conferiu a derrota à suposta má fé da arbitragem – hipócrita desculpa dos futuros campeões mundiais sob suspeitas.
98 anos depois do primeiro triunfo em campos adversários, o futebol brasileiro tomou outro rumo. Seria bom dizer que continua dando olé por onde passa, a fim de contrariar ainda mais os xenófobos da bola, mas o que se tem visto é um passeio dos estrangeiros.
Se a Seleção Brasileira esqueceu o caminho do sucesso, a história sempre se lembrará de Naná e seu grande feito – o primeiro gol do Brasil no exterior.
Se a Seleção Brasileira esqueceu o caminho do sucesso, a história sempre se lembrará de Naná e seu grande feito – o primeiro gol do Brasil no exterior.
Texto em homenagem ao meu bisavô Juvenal de Campos Filho, o Naná.
Belo texto, Milan! Resgata o amor ao país; ao ser uma pátria - de cuteiras ou não!
ResponderExcluirAbraço
Pena que o seu bisavô já se foi. Tá fazendo falta um artilheiro na selecinha do Mano. Parabéns!
ResponderExcluirAgora SIM! Continue investindo seu trabalho nesse campo. Você tem qualidade e paixão. E é isso que importa.
ResponderExcluirMandou bem, mano. Parabéns! E sucesso com as resenhas.
Abrasssssss...
Querido Bisneto,
ResponderExcluirÉ com muita honra que fiquei sabendo que fui lembrado pelo meu bisneto mais querido.Depois de muito tempo longe dessa terra conforta meu coração a lembrança, o carinho e seu talento para a escrita.Sinto falta de coisas terrenas, da minha querida bola (aqui ela varia bastante pela ausência de gravidade), das bebidas inigualáveis, das festas,das mulheres.Estou bem aqui, adaptado e torcendo muito por vocês ai, especialmente para você Marcelo. Meu tempo aqui é curto, tenho afazeres, não posso me alongar. Mande um beijo para as minhas filhas.
Um abraço apertado pra você, te vejo daqui a muito tempo...
É um honra saber que espíritos de luz de diferentes épocas se aproximam pela arte da psicografia. Seu primo é pródigo neste raro dom.
ResponderExcluirBastante nobre me parece sua arte escrita, especialmente quando homenageia suas origens.
O futebol ainda te trará muita alegria e prosperidade, seja em campos reais, virtuais ou espirituais.
Um fraterno abraço,
Bezerra de Menezes (trisavô do Mano)