Na história da Copa América, o Uruguai venceu todas as edições que disputou em seus domínios (sete), assim como o Brasil (quatro). A Argentina só não foi campeã em casa em três das nove oportunidades: justamente quando deu Uruguai. Isso já seria o bastante para los hermanos se, nesta edição, a equipe celeste não tivesse eliminado a Argentina e desempatado a disputa pela soberania do continente. Realmente, tamanho não é documento; o menor país da competição é o maior campeão dela.
A Copa América 2011 foi, indubitavelmente, a mais “estranha” de todas. A começar pela rodada inaugural sem gols, derrubando muitos programas televisivos que vivem de bola na rede. Para piorar, os critérios de desempate foram esdrúxulos ao valorizar mais os gols (escassos) do que as vitórias. Em consequência, a Costa Rica caiu na primeira fase com uma vitória e saldo de gols negativo, enquanto o Paraguai se classificou com três empates e um óbvio saldo zerado. Deu no que deu: a seleção guarani foi a primeira na história do futebol mundial a chegar em uma final sem ter vencido uma partida sequer. E assim terminou.
Melhor para o Uruguai, que sobreviveu às zebras e, com um futebol vistoso, não teve dificuldades na decisão. Desde o apito inicial, Suárez & cia. endiabraram a defesa paraguaia. Logo a 1min de jogo, o escanteio de Forlán resultou em um massacre aéreo, salvo apenas pela mão de Ortigoza. A arbitragem de Sálvio Spínola ignorou a infração, ficando claro que não só o futebol do Brasil foi mal no torneio.
A insistência uruguaia deu resultado aos 11min. O zagueiro paraguaio Veron ficou a ver navios após o toque sutil de Suárez para tirá-lo da jogada. O chute do melhor jogador da Copa América foi no cantinho do melhor goleiro dela. Uruguai 1 a 0.
Aos poucos, o Paraguai conseguiu equilibrar a partida, mas sem ameaçar o gol de Muslera. O Uruguai, por sua vez, adotou a estratégia do contra-ataque: pior para Veron e sua coluna, que sofreram com as investidas de Suárez.
Aos 41min, um exemplo de determinação premiou o escrete celeste. Arévalo Rios roubou a bola na intermediária e serviu com açúcar o companheiro Forlán. Um arremate forte, sem ação para o goleiro Villar, acabou com o jejum de 12 jogos do atacante na seleção – desde a Copa do Mundo ele não marcava com a camisa azul celeste. No final do 1º tempo e com 2 a 0 a favor, a raça de Diego Pérez em evitar uma bola que saía pela linha de fundo mostrou quem estava mais determinado a ser campeão.
Porém, o início do 2º tempo deu um susto nos uruguaios. Aos 8min, Haedo Valdéz chutou no travessão de Muslera. Os paraguaios bem que tentaram pressionar, mas sem competência para tanto, acabaram observando os uruguaios administrarem a partida. No finalzinho do jogo, com o placar já definido, um contra-ataque mortal foi o golpe de misericórdia. Cavani lançou Suárez que, de cabeça, deixou Forlán na cara de Villar. O atacante deu um leve toque na saída do goleiro, confirmou a goleada e ainda se tornou o maior artilheiro da história da Celeste, com 31 gols, ao lado de Héctor Scarone.
Ao final da partida, o Estádio Monumental de Núñez viu-se tomado pelas lágrimas de felicidade da enorme torcida uruguaia presente, numa cena bem diferente da vivida pelo estádio, há pouco mais de um mês, no rebaixamento do River Plate. Com certeza, uma vitória monumental da raça, da união e do comprometimento de um time com sua nação. Afinal, cada conquista da Celeste – outrora em preto e branco – enche de cor a vida do povo uruguaio.
A camiseta comemorativa dos jogadores na premiação, que dizia “orgullo celeste”, diz tudo. Certamente, é isso que falta para o rival do Norte: o orgulho em vestir a camisa da seleção.
Oscar Tabárez, o maestro do resgate uruguaio, remontou o time com uma geração nem tão talentosa quanto a de Francescoli e Rubén Sosa, mas muito mais compromissada com o povo uruguaio, que ama o futebol tanto quanto os seus vizinhos. E jogar com amor pela pátria é o princípio ativo de qualquer seleção de futebol que almeja ser vencedora.
Com o título, o Uruguai se classificou para a próxima Copa das Confederações, em 2013, no Brasil. Ainda terá que disputar as eliminatórias para garantir vaga na Copa de 2014, o que imagino que não será difícil. Difícil mesmo é deixar de pensar que, se as coisas continuarem dessa forma, poderemos ter um novo Maracanazzo.