quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Um minuto de silêncio (leia em voz baixa)


Todo mundo tem um time de coração. Mas um dia, o coração para de bater. Taquicardia, infarto, pânico, desespero. Como é possível um jogador perder tantos gols? E um clube, tantos pontos? É, meu amigo, se o seu time já está moribundo faltando ainda um mês para o fim da temporada, é hora de ter fé. Não enterre as suas esperanças!
Começo pelo Palmeiras, que sequer chegou a nascer em 2011. A má administração do clube e a sequência de desavenças entre diretoria, torcedores, jogadores e comissão técnica foram sentidas dentro de campo: mais um ano sem títulos e sem vaga na Libertadores. Kléber brigou com Felipão, João Vítor com a torcida e Valdivia com a mulher. Mas corno mesmo é o torcedor palmeirense, que se sente traído pelas promessas e a falta de competência dos comandantes. Em meio a toda essa palhaçada, Adriano Michael Jackson apareceu. Só que Adriano foi embora e Michael Jackson morreu. Ao Verdão só restou a última rodada do Brasileiro. Tirar o título do rival é o prêmio de consolação.

O São Paulo, por sua vez, respira por aparelhos. O clube passou um ano diferente, com dois técnicos que não conseguiram domar o elenco – por isso veio Leão. A verdade é que o tricolor passou mais tempo pensando em comemorar fatos do que títulos. Rogério fez cem gols: teve festa. Rogério fez mil jogos: festa. Luís Fabiano foi apresentado: mais festa. Luís Fabiano estreou: outra festa. Mas quem fez a festa mesmo foram os adversários. O time nunca havia perdido tantos jogos dentro de seus domínios. Lá se vão dez jogos sem vitória, outros tantos sem ao menos marcar um gol. E a vaga na Libertadores segue ameaçada pelo segundo ano consecutivo.

Já o Corinthians é um morto de fome de títulos. Ainda briga pela taça no Brasileiro e a pressão vinda das arquibancadas aumenta a cada rodada, de acordo com a fragilidade dos adversários nessa reta final. Vieram os reforços de peso – Adriano à parte – e o time se encontrou: Liédson fazendo gols, Alex dando belos passes e Ralf desarmando os adversários. Mas a boa fase não foi o suficiente para se manter tranquilo no topo. O Vasco encostou e promete brigar até a derradeira rodada. E a cruz de Malta não pretende se fixar em nenhuma cova.

O Santos, com Muricy, ganhou novamente a Libertadores e encontrou o centroavante ideal: Humberlito Borges. Mas a ausência de Ganso fez o time cair de produção e o Brasileiro se transformou numa grande excursão de amistosos pelo País. O time parece estar se guardando para o Mundial – só esqueceram de avisar o Neymar. Porém, o torneio intercontinental não vai ser fácil; muito pelo contrário. Para o Santos conquistar o mundo, só mesmo se Messi for dessa para uma melhor. Se bem que, aqui, ele já está numa melhor.

Até agora, o ano de 2011 foi bom mesmo para a Portuguesa, que renasceu das cinzas e conquistou um título após quase 40 anos.
E o Flamengo? A maior conquista do ano foi o Ronaldinho. Para por aí.
O dia de finados da bola ainda está por vir. Aqui se faz e aqui se paga. E são poucos que vão descansar em paz.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

As mil e uma noites de Rogério Ceni


Quando Rogério Ceni acordou, em 25 de junho de 1993, não imaginava que pegaria um pênalti naquele dia. Ainda mais em sua estreia na equipe principal do São Paulo. O adversário era o Tenerife, pelo Torneio Santiago de Compostela. A vitória de 4 a 1 – Rogério defendeu a penalidade quando a partida estava 2 a 1 para o tricolor – levou o time para a final contra o River Plate, dois dias depois. Após um empate por 2 a 2, a decisão foi para os pênaltis. Rogério Ceni pegou uma cobrança e foi dormir campeão.

Poucas histórias de sucesso começam com vitória, mas Rogério Ceni sempre foi especialista em contrariar as estatísticas. O goleiro quebrou muitos recordes e a cara de quem não acreditava em seu talento dentro e fora da área.

Rogério Ceni não é só o jogador que vestiu mais vezes a camisa do São Paulo. Ele é o jogador que mais vezes atuou pelo mesmo time em Campeonatos Brasileiros, além de ser o que mais partidas jogou na história da competição; o jogador brasileiro que mais atuou na Libertadores e o maior artilheiro do São Paulo no torneio; o segundo goleiro da história com mais títulos em um só clube; o quarto jogador que mais vestiu a camisa de um time no futebol mundial; o atleta que mais entrou em campo com a tarja de capitão em todo o mundo; o maior vencedor da Bola de Prata, premiação concedida pela revista Placar; o maior goleiro artilheiro da história do futebol e o sétimo maior artilheiro do Estádio do Morumbi. Isso tudo, claro, acompanhado por muitos títulos nacionais e internacionais.

Em sua milésima noite de sono após uma partida disputada, Rogério Ceni certamente dormiu feliz. O goleiro foi responsável por mais uma quebra de recorde em sua carreira, desta vez a de público na atual edição do Brasileirão. O estádio do Morumbi recebeu 63.154 pessoas, dentre elas, 3 mil crianças – nem a Xuxa seria capaz de juntar tantos baixinhos.

Além de goleiro, Rogério Ceni atuou como DJ no dia da festa, escolhendo a trilha sonora do pré-jogo: Guns n’Roses, Pink Floyd, Midnight Oil e, claro, AC/DC – sua banda favorita. Depois da homenagem, a vitória diante do Atlético Mineiro foi a cereja do bolo.

Perguntado ao final da partida, Rogério comentou sobre o sentimento de chegar à marca de mil jogos: “Para mim isto foi muito bom, com o encerramento que eu imaginava (vitória do São Paulo). Com o carinho da torcida, a parceria e acreditar naquele cara que está aqui faz tempo. Ter uma festa como esta é excelente, mas já estou pensando no jogo 1001”. Pois bem. Que venha a milésima primeira noite de sono; com vitória e, quem sabe, a liderança.

1.000 partidas. Mais de 100 gols. Como jogador e pessoa pública, nota 10. Para os críticos, o camisa 1 é um zero à esquerda. Para seus súditos, três à direita.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Legado dos Derrotados


Quando se fala em Copa do Mundo Sub-20 – antigo “Mundial de Juniores” –, logo se pensa nos jogadores que foram campeões e se tornaram famosos ou craques. Maradona foi o primeiro e, certamente, o maior deles.

Brasil e Argentina sempre se mostraram especialistas em revelar jogadores e, sobretudo, conquistar títulos na categoria – 6 a 5 para los hermanos. No lado brasileiro, foram campeões Bebeto, Dunga e Jorginho, em 1983, Taffarel, Silas e Müller, em 1985, Dida, em 1993, e Daniel Alves, em 2003. Os argentinos, por sua vez, venceram com Maradona, em 1979, Sorín, em 1995, Samuel, Cambiasso e Riquelme, em 1997, D’Alessandro, em 2001, Messi, em 2005, e Agüero, em 2007.

Porém, em 1987, não deu Brasil e nem Argentina. A então Iugoslávia brilhou com Boban, Prosinečki e Šuker – o trio faria sucesso pela Croácia na Copa de 98. Houve ainda outros nomes que se destacaram depois de conquistar o torneio: os portugueses Rui Costa e Figo, campeões em 1991, e os espanhóis Xavi e Casillas, vencedores em 1999. Entretanto, a relação “título–fama” nem sempre foi bem sucedida. Muito pelo contrário.

Em 1981, a Argentina sequer passou da 1º fase, mas Burruchaga estava lá, anônimo, mal sabendo que seria o autor do gol do bicampeonato mundial, cinco anos mais tarde. Goycochea era o goleiro daquele time.

A Holanda nunca chegou à decisão do Sub-20, mas, em 1983, apresentou Marco van Basten ao mundo. No mesmo ano, Rubén Sosa caiu nas quartas com o Uruguai. No Mundial de 1985, o Brasil goleou a Colômbia por 6 a 0 – coitado do jovem Higuita.

O russo Salenko não foi apenas artilheiro da Copa de 94. Cinco anos antes, ainda sob a patente soviética, o atacante foi o goleador do Mundial Sub-20, com 5 gols. A Espanha, campeã em 1999, fracassou quatro anos antes, com Raúl e Morientes, e quatro anos depois, na final, com Iniesta.

A França de 1997 perdeu de 3 a 0 do Brasil na 1º fase. O resultado só saiu da cabeça de Sagnol, Silvestre, Anelka, Trezeguet e Henry um ano depois. Na mesma edição, a Inglaterra de Owen foi eliminada pela Argentina nas oitavas. Só que, neste caso, os bretões não conseguiram devolver o placar na Copa de 98.

Em 1999, o Uruguai tirou o Paraguai de Justo Villar, Santa Cruz e Cabañas nas oitavas e o Brasil de Ronaldinho Gaúcho, Juan e Júlio César nas quartas. Mas o time de Forlán acabou surpreendido pelo Japão nas semifinais. Já a Inglaterra de Crouch perdeu os três jogos que fez.

Em 2001, Brasil, República Tcheca e Holanda caíram nas quartas, mesmo com Kaká, Adriano Imperador, Petr Čech, Stekelenburg, van der Vaart e Robben.

A Argentina de 2003, de Mascherano, Tévez e Montillo, não ganhou. Mas a de 2005, com o até então inexpressivo Messi, sagrou-se campeã, depois de eliminar a Colômbia de Falcao García e a Espanha de Fàbregas.

Em 2007, o Uruguai de Cavani e Luis Suárez ficou nas oitavas, enquanto a Espanha de Piqué parou nas quartas. Em 2009, o Brasil de Ganso perdeu a decisão contra Gana nos pênaltis.

Diante desta curiosa estatística, as chances de sucesso de Henrique, Philippe Coutinho e Oscar, campeões em 2011 pelo Brasil, parecem menores que a do português Nélson Oliveira e do mexicano Jorge Enríquez, Bola de Prata e Bronze da competição, respectivamente. Quais deles estarão em 2014? Só o tempo e as listas de convocados poderão dizer.






quinta-feira, 18 de agosto de 2011

E aí, Mano?

 
Ronaldinho, Marcelo e Hulk, entre outros. Na convocação de hoje para o amistoso diante de Gana, em setembro, o técnico Mano Menezes surpreendeu a todos e cedeu às pressões da imprensa e da torcida.

Um ano depois de um convincente triunfo em terras ianques, o treinador acumula na Seleção Brasileira mais incertezas e irregularidades do que vitórias e grandes exibições. A derrota para a Alemanha, na semana passada, teve sabor amargo para nós e doce para os alemães, que quebraram um tabu de 18 anos sem vencer o Brasil – a última vitória havia sido em novembro de 1993.

Depois de perder para Argentina e França, empatar com a Holanda e perder a Copa América de forma melancólica, a derrota para os tricampeões mundiais abriu mais um parêntese na competência do treinador. Pressionado por todos os lados, ele mudou a estratégia: “resultados imediatos” no lugar de “Olimpíada 2012”.

A incoerência da convocação – não com o povo, mas com suas próprias convicções – é evidente. Há de se convir que Ganso nunca mais voltou a ser o mesmo depois da contusão, mas Ronaldinho já estava jogando o fino da bola quando Mano convocou o time para o amistoso em Frankfurt. Então, por que só agora?

A polêmica lateral esquerda mudou: saiu a arrogância de André Santos e entrou o destempero de Marcelo. Todo mundo – aqui levanto minha mão – defendeu a presença do lateral, que fez excelente temporada pelo Real Madrid e foi preterido por um suposto e-mail indesejável. Curiosamente, a convocação do atleta saiu no dia seguinte a uma de suas piores atuações pelo time merengue – foi expulso na derrota do Real para o Barça, que custou aos madrilenhos o título da Supercopa espanhola. Então, por que agora e antes não? A caixa de entrada do técnico deve estar lotada.

Apesar das agradáveis surpresas – além de Ronaldinho e Marcelo, o bom goleiro Fábio, o lateral sub-20 Danilo e o promissor David Luiz –, ainda faltam alguns nomes, como Thiago Neves e Hernanes, e outros teimam em aparecer na lista. Lúcio corre contra a maré da renovação. Resta saber se, com 36 anos, o atual capitão dará conta do recado em 2014. Lucas Leiva é seu fiel escudeiro, além de dividir com o técnico o mesmo empresário.

No fim das contas, a sombra de Muricy ainda paira sobre Mano Menezes. Mas o gaúcho pode ficar tranquilo; o treinador santista não nasceu para ser fantoche. Se dançar conforme a música é o ritmo da CBF, o tema da Copa, provavelmente, será a marcha fúnebre.





A lista (de Schlinder?)

GOLEIROS
Julio César (Inter de Milão)
Fabio (Cruzeiro)
Jefferson (Botafogo)

LATERAIS
Daniel Alves (Barcelona)
Danilo (Santos)
Marcelo (Real Madrid)
Adriano (Barcelona)

ZAGUEIROS
Lúcio (Inter de Milão)
Thiago Silva (Milan)
David Luiz (Chelsea)
Dedé (Vasco)

VOLANTES
Lucas Leiva (Liverpool)
Ralf (Corinthians)
Luiz Gustavo (Bayern de Munique)
Elias (Atlético de Madri)

MEIAS
Paulo Henrique Ganso (Santos)
Lucas (São Paulo)
Fernandinho (Shakhtar)
Ronaldinho Gaúcho (Flamengo)

ATACANTES
Alexandre Pato (Milan)
Robinho (Milan)
Neymar (Santos)
Hulk (Porto)
Leandro Damião (Inter)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Saga do Visitante


Não é à toa que o Brasil obteve seus cinco títulos mundiais atuando em território alheio. Ao longo da história, o selecionado brasileiro fez bem menos aparições em suas terras do que fora delas e, na mais importante, em 1950, caiu diante de seus súditos.

O futebol que conquistou Europa, América e Ásia começou sua saga de visitante vencedor há exatos 98 anos. Naquele longínquo domingo, 10 de agosto de 1913, a Seleção Brasileira, propriamente dita, ainda não existia – seria formada pela primeira vez um ano depois –, mas estava bem representada por um combinado paulista.

O escrete canarinho contava com o craque Arthur Friedenreich, que ainda atuava pelo Ipiranga. No elenco também estava Juvenal de Campos Filho, o Naná, que nem desconfiava ser um jogador predestinado. Nascido em 1º de janeiro de 1895, em Tatuí (SP), o atacante fazia parte de uma grande maioria de atletas do Americano.
 
O amistoso era o primeiro jogo do Brasil no exterior; justamente contra a seleção argentina, em Buenos Aires. O futebol ainda amador não tirara a importância do evento, uma vez que, àquela época, os argentinos já eram rivais declarados.

Na manhã do embate, os hermanos demonstraram a soberba de sempre ao estampar manchetes do tipo ¿Cuántos goles en Brasil?”. Tais jornais serviriam apenas para comprovar, além da habitual arrogância, a incompetência dos platinos.

Jogando no campo do Racing Club, a Argentina – com sua força máxima, diga-se de passagem – acreditava que a vitória seria uma questão de tempo. Porém, o time alviceleste foi surpreendido aos 33min do 1° tempo. O ponta-esquerda Formiga cruzou por baixo, na altura da marca penal, para o petardo de Naná, de primeira. Os argentinos ainda se recuperavam do baque quando, 4min depois, o capitão Décio Viccari surpreendeu o goleiro Pearson com outro arremate rasteiro: Brasil 2 a 0, selando o placar ainda na etapa inicial.

A Argentina livrou-se do vento contrário – razão atribuída para o revés do 1°tempo – e voltou para a fase complementar mais aguerrida, mas foi incapaz de mudar o placar.

A inesperada vitória brasileira foi arbitrada pelo técnico brasileiro A. Hutchinson, provavelmente o primeiro treinador de futebol no Brasil. Por sua vez, a Argentina conferiu a derrota à suposta má fé da arbitragem – hipócrita desculpa dos futuros campeões mundiais sob suspeitas.

98 anos depois do primeiro triunfo em campos adversários, o futebol brasileiro tomou outro rumo. Seria bom dizer que continua dando olé por onde passa, a fim de contrariar ainda mais os xenófobos da bola, mas o que se tem visto é um passeio dos estrangeiros. 

Se a Seleção Brasileira esqueceu o caminho do sucesso, a história sempre se lembrará de Naná e seu grande feito – o primeiro gol do Brasil no exterior.




Texto em homenagem ao meu bisavô Juvenal de Campos Filho, o Naná.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Por tabelas

Nem Fernanda Lima, em seu belíssimo vestido verde, nem Lucas, em seu extravagante terno xadrez. Tampouco França e Espanha no mesmo grupo europeu. O que mais me chamou a atenção no sorteio das eliminatórias da Copa de 2014 foram as cifras: 30 milhões de reais, pagos pelo governo do Rio, a prefeitura carioca e o povo, por tabela. Se levarmos em consideração que o evento foi transmitido para 600 milhões de pessoas em todo o mundo, calcula-se que foram gastos 5 centavos para cada uma delas ligar sua TV. Pode parecer pouco, mas não é. Muito pelo contrário.

Este é apenas mais um capítulo da polêmica organização do mundial no Brasil. Está cada vez mais difícil recuperar a paixão pelas Copas em meio a tanta pilantragem envolvendo estádios, dirigentes e televisão. Mas não estou aqui para jogar pedras nos outros – ainda mais não tendo provas contra ninguém. Minha intenção é apenas comentar as “pedrinhas” do sorteio.

Pois bem. A FIFA mostrou que sabe como ninguém organizar tabelas, apesar da cara de interrogação de muita gente que esteve na Marina da Glória. Sim, é complicado, mas não poderia ser diferente em um mundo onde os países nascem como os coelhos.

Alguns jogadores e ex-jogadores brasileiros foram convidados especiais. Cafu e Neymar, por exemplo, ficaram com o sorteio da África. A jovem promessa foi responsável pelo “clássico da fome” na 1º fase (Somália x Etiópia), o que sugere que ele ganhe massa muscular se quiser chegar longe na carreira. O capitão do penta colocou Marrocos e Costa do Marfim na mesma chave, praticamente sepultando as chances marroquinas de viajar ao Brasil. Se bem que as eliminatórias por lá são as mais indefinidas de todas, pois só conheceremos os cinco classificados após uma 3º fase de mata-mata entre os dez vencedores dos grupos da 2º fase (ufa!).

Na Ásia, Zico tirou a "sorte grande" para seus fãs japoneses, colocando-os diante do emergente Uzbequistão, outra seleção que ele conhece bem. Ao seu lado estava o são-paulino Lucas. O jovem promissor demonstrou o desejo de estar na Copa de 2014, o que não pode ser dito pelos países sorteados por ele.

Lá estavam também Bebeto e Lucas Piazon, destinados a sortear os grupos da América do Norte, Central e Caribe.  O novo Kaká das tietes colocou frente a frente Barbados e Bermudas, num verdadeiro clássico hippie do Caribe. Por sua vez, Bebeto condenou México e Costa Rica a brigarem por uma vaga na Copa, deixando o derrotado, provavelmente, a mercê da repescagem.

A América do Sul ficou de fora do sorteio por motivos óbvios, uma vez que todas as nove seleções se enfrentarão em grupo único. Porém, o calendário mais pesado das eliminatórias deverá coroar seis nações sul-americanas na Copa do Mundo – a repescagem contra a Ásia não oferece grandes ameaças. Boa notícia para o tradicional saco de pancadas do continente, a Venezuela, que, enfim, parece estar mais próxima de seu primeiro mundial.

Depois de um show diretamente do além de Sinatra e Jobim, foi a vez da mais injustiçada de todas as zonas classificatórias: a Oceania. Ela não tem vaga definida, apesar de o mundo todo ter que engolir a campanha da Nova Zelândia na Copa passada – a única invicta. Talvez por isso Zagallo tenha sido escolhido para participar do sorteio oceânico. O octogenário ainda garantiu que o Brasil será hexa em 2014. Só resta saber se ele estará vivo até lá para ver sua predição se cumprir. Certeza mesmo é que as eliminatórias da Oceania serão as mais bonitas de todas. Bom futebol? Não, ilhas paradisíacas.

Por fim, a Europa. O sorteio mais aguardado do dia coube a Ronaldo e Ganso. Enquanto o santista demonstrava seu bom gosto em um terno risca de giz, o Fenômeno não cabia no seu. Se tivessem jogado juntos, teriam dado muito trabalho aos adversários. E mesmo nunca tendo atuado no mesmo time, fizeram um belo estrago na zona classificatória europeia.

Ganso acabou com a parceria entre Ucrânia e Polônia, sedes da Euro-2012, que duelarão pela vaga na Copa – isso se passarem pela Inglaterra. Mas quem caprichou mesmo no sorteio europeu foi Ronaldo. O Fenômeno colocou Croácia e Sérvia em pé de guerra novamente – desta vez, não nos campos de batalha; complicou a vida da já complicada seleção italiana, em uma chave com Dinamarca, República Tcheca e Bulgária; e se já não bastasse, acabou com o sono de espanhóis e franceses pelos próximos três anos, com apenas uma vaga direta na Copa para eles.

Pode-se dizer que a Copa do Mundo no Brasil já começou. Sem estádios, sem credibilidade e sem-vergonha, infelizmente. Só mesmo o tempo poderá dizer se estamos no caminho certo. Enquanto isso, gostaria de ter os meus 5 centavos de volta. Eles fazem a diferença no troco do supermercado.






segunda-feira, 25 de julho de 2011

Orgullo celeste

Na história da Copa América, o Uruguai venceu todas as edições que disputou em seus domínios (sete), assim como o Brasil (quatro). A Argentina só não foi campeã em casa em três das nove oportunidades: justamente quando deu Uruguai. Isso já seria o bastante para los hermanos se, nesta edição, a equipe celeste não tivesse eliminado a Argentina e desempatado a disputa pela soberania do continente. Realmente, tamanho não é documento; o menor país da competição é o maior campeão dela.

A Copa  América 2011 foi, indubitavelmente, a mais “estranha” de todas. A começar pela rodada inaugural sem gols, derrubando muitos programas televisivos que vivem de bola na rede. Para piorar, os critérios de desempate foram esdrúxulos ao valorizar mais os gols (escassos) do que as vitórias. Em consequência, a Costa Rica caiu na primeira fase com uma vitória e saldo de gols negativo, enquanto o Paraguai se classificou com três empates e um óbvio saldo zerado. Deu no que deu: a seleção guarani foi a primeira na história do futebol mundial a chegar em uma final sem ter vencido uma partida sequer. E assim terminou.

Melhor para o Uruguai, que sobreviveu às zebras e, com um futebol vistoso, não teve dificuldades na decisão. Desde o apito inicial, Suárez & cia. endiabraram a defesa paraguaia. Logo a 1min de jogo, o escanteio de Forlán resultou em um massacre aéreo, salvo apenas pela mão de Ortigoza. A arbitragem de Sálvio Spínola ignorou a infração, ficando claro que não só o futebol do Brasil foi mal no torneio.

A insistência uruguaia deu resultado aos 11min. O zagueiro paraguaio Veron ficou a ver navios após o toque sutil de Suárez para tirá-lo da jogada. O chute do melhor jogador da Copa América foi no cantinho do melhor goleiro dela. Uruguai 1 a 0.

Aos poucos, o Paraguai conseguiu equilibrar a partida, mas sem ameaçar o gol de Muslera. O Uruguai, por sua vez, adotou a estratégia do contra-ataque: pior para Veron e sua coluna, que sofreram com as investidas de Suárez.

Aos 41min, um exemplo de determinação premiou o escrete celeste. Arévalo Rios roubou a bola na intermediária e serviu com açúcar o companheiro Forlán. Um arremate forte, sem ação para o goleiro Villar, acabou com o jejum de 12 jogos do atacante na seleção – desde a Copa do Mundo ele não marcava com a camisa azul celeste. No final do 1º tempo e com 2 a 0 a favor, a raça de Diego Pérez em evitar uma bola que saía pela linha de fundo mostrou quem estava mais determinado a ser campeão.

Porém, o início do 2º tempo deu um susto nos uruguaios. Aos 8min, Haedo Valdéz chutou no travessão de Muslera. Os paraguaios bem que tentaram pressionar, mas sem competência para tanto, acabaram observando os uruguaios administrarem a partida. No finalzinho do jogo, com o placar já definido, um contra-ataque mortal foi o golpe de misericórdia. Cavani lançou Suárez que, de cabeça, deixou Forlán na cara de Villar. O atacante deu um leve toque na saída do goleiro, confirmou a goleada e ainda se tornou o maior artilheiro da história da Celeste, com 31 gols, ao lado de Héctor Scarone.

Ao final da partida, o Estádio Monumental de Núñez viu-se tomado pelas lágrimas de felicidade da enorme torcida uruguaia presente, numa cena bem diferente da vivida pelo estádio, há pouco mais de um mês, no rebaixamento do River Plate. Com certeza, uma vitória monumental da raça, da união e do comprometimento de um time com sua nação. Afinal, cada conquista da Celeste – outrora em preto e branco – enche de cor a vida do povo uruguaio.

A camiseta comemorativa dos jogadores na premiação, que dizia “orgullo celeste”, diz tudo. Certamente, é isso que falta para o rival do Norte: o orgulho em vestir a camisa da seleção.

Oscar Tabárez, o maestro do resgate uruguaio, remontou o time com uma geração nem tão talentosa quanto a de Francescoli e Rubén Sosa, mas muito mais compromissada com o povo uruguaio, que ama o futebol tanto quanto os seus vizinhos. E jogar com amor pela pátria é o princípio ativo de qualquer seleção de futebol que almeja ser vencedora.

Com o título, o Uruguai se classificou para a próxima Copa das Confederações, em 2013, no Brasil. Ainda terá que disputar as eliminatórias para garantir vaga na Copa de 2014, o que imagino que não será difícil. Difícil mesmo é deixar de pensar que, se as coisas continuarem dessa forma, poderemos ter um novo Maracanazzo.