Nem Fernanda Lima, em seu belíssimo vestido verde, nem Lucas, em seu extravagante terno xadrez. Tampouco França e Espanha no mesmo grupo europeu. O que mais me chamou a atenção no sorteio das eliminatórias da Copa de 2014 foram as cifras: 30 milhões de reais, pagos pelo governo do Rio, a prefeitura carioca e o povo, por tabela. Se levarmos em consideração que o evento foi transmitido para 600 milhões de pessoas em todo o mundo, calcula-se que foram gastos 5 centavos para cada uma delas ligar sua TV. Pode parecer pouco, mas não é. Muito pelo contrário.
Este é apenas mais um capítulo da polêmica organização do mundial no Brasil. Está cada vez mais difícil recuperar a paixão pelas Copas em meio a tanta pilantragem envolvendo estádios, dirigentes e televisão. Mas não estou aqui para jogar pedras nos outros – ainda mais não tendo provas contra ninguém. Minha intenção é apenas comentar as “pedrinhas” do sorteio.
Pois bem. A FIFA mostrou que sabe como ninguém organizar tabelas, apesar da cara de interrogação de muita gente que esteve na Marina da Glória. Sim, é complicado, mas não poderia ser diferente em um mundo onde os países nascem como os coelhos.
Alguns jogadores e ex-jogadores brasileiros foram convidados especiais. Cafu e Neymar, por exemplo, ficaram com o sorteio da África. A jovem promessa foi responsável pelo “clássico da fome” na 1º fase (Somália x Etiópia), o que sugere que ele ganhe massa muscular se quiser chegar longe na carreira. O capitão do penta colocou Marrocos e Costa do Marfim na mesma chave, praticamente sepultando as chances marroquinas de viajar ao Brasil. Se bem que as eliminatórias por lá são as mais indefinidas de todas, pois só conheceremos os cinco classificados após uma 3º fase de mata-mata entre os dez vencedores dos grupos da 2º fase (ufa!).
Na Ásia, Zico tirou a "sorte grande" para seus fãs japoneses, colocando-os diante do emergente Uzbequistão, outra seleção que ele conhece bem. Ao seu lado estava o são-paulino Lucas. O jovem promissor demonstrou o desejo de estar na Copa de 2014, o que não pode ser dito pelos países sorteados por ele.
Lá estavam também Bebeto e Lucas Piazon, destinados a sortear os grupos da América do Norte, Central e Caribe. O novo Kaká das tietes colocou frente a frente Barbados e Bermudas, num verdadeiro clássico hippie do Caribe. Por sua vez, Bebeto condenou México e Costa Rica a brigarem por uma vaga na Copa, deixando o derrotado, provavelmente, a mercê da repescagem.
A América do Sul ficou de fora do sorteio por motivos óbvios, uma vez que todas as nove seleções se enfrentarão em grupo único. Porém, o calendário mais pesado das eliminatórias deverá coroar seis nações sul-americanas na Copa do Mundo – a repescagem contra a Ásia não oferece grandes ameaças. Boa notícia para o tradicional saco de pancadas do continente, a Venezuela, que, enfim, parece estar mais próxima de seu primeiro mundial.
Depois de um show diretamente do além de Sinatra e Jobim, foi a vez da mais injustiçada de todas as zonas classificatórias: a Oceania. Ela não tem vaga definida, apesar de o mundo todo ter que engolir a campanha da Nova Zelândia na Copa passada – a única invicta. Talvez por isso Zagallo tenha sido escolhido para participar do sorteio oceânico. O octogenário ainda garantiu que o Brasil será hexa em 2014. Só resta saber se ele estará vivo até lá para ver sua predição se cumprir. Certeza mesmo é que as eliminatórias da Oceania serão as mais bonitas de todas. Bom futebol? Não, ilhas paradisíacas.
Por fim, a Europa. O sorteio mais aguardado do dia coube a Ronaldo e Ganso. Enquanto o santista demonstrava seu bom gosto em um terno risca de giz, o Fenômeno não cabia no seu. Se tivessem jogado juntos, teriam dado muito trabalho aos adversários. E mesmo nunca tendo atuado no mesmo time, fizeram um belo estrago na zona classificatória europeia.
Ganso acabou com a parceria entre Ucrânia e Polônia, sedes da Euro-2012, que duelarão pela vaga na Copa – isso se passarem pela Inglaterra. Mas quem caprichou mesmo no sorteio europeu foi Ronaldo. O Fenômeno colocou Croácia e Sérvia em pé de guerra novamente – desta vez, não nos campos de batalha; complicou a vida da já complicada seleção italiana, em uma chave com Dinamarca, República Tcheca e Bulgária; e se já não bastasse, acabou com o sono de espanhóis e franceses pelos próximos três anos, com apenas uma vaga direta na Copa para eles.
Pode-se dizer que a Copa do Mundo no Brasil já começou. Sem estádios, sem credibilidade e sem-vergonha, infelizmente. Só mesmo o tempo poderá dizer se estamos no caminho certo. Enquanto isso, gostaria de ter os meus 5 centavos de volta. Eles fazem a diferença no troco do supermercado.